O exercício dá proteção

O exercício dá proteção:

Por dois meses, 40 ratinhos fizeram exercício diariamente, tendo só um dia de folga por semana. Durante uma hora eles corriam na esteira, numa simulação perfeita do que as pessoas fazem na academia. Enquanto isso, outros 40 roedores passavam os dias numa boa, naquela rotina sedentária que muitos seres humanos ainda insistem em levar. O detalhe é que todos esses bichos tinham um tipo de câncer chamado tumor de Walker 256.
O objetivo dos pesquisadores ao pôr os ratinhos para malhar era justamente avaliar o impacto da atividade física moderada e regular na saúde de portadores de câncer. O resultado foi além do esperado: as cobaias malhadoras viveram o dobro do tempo. “Ne las o crescimento do tumor ficou comprometido”, conta o fisiolo-gista Reury Frank Bacurau, autor da pesquisa feita recentemente no Laboratório de Metabolismo do Instituto de Ciências Biomé-dicas da Universidade de São Paulo (ICB — USP).
Estudos relacionando um programa de exercícios à melhora na qualidade de vida de pacientes não são novidade. Só que, quando se trata de seres humanos, o bem-estar de malhar, a companhia dos amigos, o contato com a natureza e até mesmo a fé de que aquela atitude ajudará a combater a doença podem influenciar o resultado positivamente. Aí fica difícil para os cientistas saber se o exercício é capaz de ajudar, sozinho, sem nenhum aspecto psicológico na jogada.
Ao contrário das pessoas, as cobaias não possuem sentimentos nem são sugestionáveis. Os ratinhos nem ao menos têm consciência de que estão doentes. Daí a prova de que o efeito protetor contra o câncer também é fisiológico e deve-se a mudanças me-tabólicas desencadeadas pelo movimento. As pesquisas nesse campo indicam que a atividade física provoca um ajuste benéfico no sistema imunológico. “Há um aumento na quantidade e na capacidade de suas células, chamadas de leucócitos”, explica o fisiolo-gista Luís Fernando Costa Rosa, chefe do Laboratório de Metabolismo do ICB — USP. Mais bem ajustado, o organismo resiste eficazmente às doenças mais variadas — do câncer à gripe, passando por micoses e afins.

É esquisito pensar que existe uma relação direta entre praticar uma atividade física e ganhar um sistema imune mais eficiente contra fungos, vírus e bactérias. Mas foi exatamente o que um trabalho australiano publicado há três anos no jornal do American College of Sports Medicine constatou: o exercício, quando praticado com regularidade e num ritmo agradável, diminui as chances de a pessoa pegar infecções. O
intrigante é que exagerar na dose provocava o efeito contrário. Sim, os atletas, sempre às voltas com treinos puxadíssimos, vivem com gripe, problemas respiratórios e até mesmo hepatite.
A explicação para essa aparente incoerência está numa substância chamada glutamina. “Quem pratica exercícios moderadamente tem as taxas dessa substância constantes no sangue”, esclarece o fisiologista Luís Fernando Costa
Rosa. Isso é ótimo, pois a glutamina serve de alimento para os leucócitos. Bem nutridas, essas células trabalham direitinho. O problema é que o treino intenso faz os níveis de glutamina despencarem — e aí a resistência cai junto.
A saída para garantir apenas o bom efeito da malhação é pegar leve ou, no caso dos atletas, partir para a suplementação. “Os ami-noácidos de cadeia ramificada, conhecidos como BCAAs, são usados na produção de glutamina”, conta Costa Rosa. “Tomar esses suplementos evita a queda da substância e diminui a incidência de doenças respiratórias.”
Entretanto, não pense que basta engolir algumas cápsulas para melhorar a capacidade das defesas. O mecanismo é bem mais complexo e ainda nem foi completamente elucidado. Por enquanto sabe-se que o exercício provoca alterações nos sistemas neuro e endocrinoló-
gico — ou seja, no cérebro e nas glândulas —, que, por sua vez, influenciam o sistema imune.
“As células dos três sistemas se comunicam, para que um regule o outro”, justifica Edna Reiche, professora de Imunologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. A interação promove um ajuste fino nas funções do sistema imune – como a multiplicação ou a redução de certas células e a liberação de anticorpos. Às vezes esses rearran-jos são imperceptíveis ou acontecem sem que a ciência conheça seus efeitos a curto ou longo prazo. O fato é que essa adaptação, chamada pelos pesquisadores de imunomodulação, otimiza o funcionamento do sistema imu-nológico. Assim o organismo conserta rapidamente qualquer desequilíbrio, seja ele interno — um tumor, por exemplo — ou externo, como a invasão por vírus.

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